
Amanhã parto para mais uma aventura. Desta vez o destino é a Ilha do Fogo em Cabo Verde: dois meses a vestir a camisola da AMI.
A mala quase não fecha (quase de certeza tem excesso de peso e ainda assim, tenho a sensação de que falta alguma coisa) e o coração, esse também vai carregadinho pelos mimos recebidos nos últimos dias.
Neste momento passam-me mil e um pensamentos pela cabeça. Queria dizer tantas coisas a algumas pessoas especiais, mas as palavras teimam em não sair como eu desejava... Andei a remexer no 'baú' e encontrei este texto tirado de um dos meus livros preferidos:
'Os sinos da igreja de S. Miguel começaram a tanger as doze badaladas da meia-noite e um ruído de vidros partidos sobressaltou o humano. O gato grande, preto e gordo caiu na rua no meio de uma chuva de estilhaços, mas pôs-se de pé sem se preocupar com as feridas na cabeça e saltou outra vez para a janela por onde havia saído.
O humano aproximou-se no preciso momento em que uma gaivota era levantada por vários gatos até ao peitoril. Atrás dos gatos, um chimpanzé punha as mãos na cara tentando tapar os olhos, os ouvidos e a boca ao mesmo tempo.
- Pega nela! Cuidado, para não se ferir nos vidros, miou Zorbas.
- Venham cá os dois – disse o humano tomando-os nos braços.
O humano afastou-se pressurosamente da janela do bazar. Debaixo da gabardina levava um gato grande, preto e gordo e uma gaivota de penas cor de prata.
- Canalhas! Bandidos! Hão-de pagar por isto! – Guinchou o chimpanzé.
- Foi o que estavas a pedir. E sabes o que o Harry vai pensar amanha de manha? Que foste tu que partiste o vidro – miou secretário.
- Caramba, desta vez você consegue tirar-me os miados da boca – miou Colonello.
- Pela dentuça da moreia! Vamos para o telhado! Vamos ver a nossa ditosa voar! – Miou Barlavento.
O gato grande, preto e gordo e a gaivota iam muito comodamente debaixo da gabardina, sentindo o calor do corpo do humano, que caminhava com passos rápidos e seguros. Sentiam bater os seus três corações a ritmos diferentes, mas com a mesma intensidade.
- Gato, tu feriste-te? – Perguntou o humano ao ver umas manchas de sangue nas bandas da gabardina.
- Não tem importância. Aonde vamos? – Perguntou Zorbas.
- Tu entendes o humano? – Grasnou ditosa.
- Entendo. E ele é uma pessoa boa que te vai ajudar a voar – garantiu-lhe Zorbas.
- Entendes a gaivota? – Perguntou o humano.
- Diz-me aonde vamos – insistiu Zorbas.
- Já não vamos, chegámos – respondeu o humano.
Zorbas deitou a cabeça de fora. Estavam diante de um edifício alto. Ergueu a vista e reconheceu a torre de S. Miguel iluminada por vários projectores. Os feixes de luz incidiam em cheio na sua esbelta estrutura forrada de chapas de cobre, que o tempo, a chuva e os ventos haviam coberto de uma patina verde.
- As portas estão fechadas – miou Zorbas.
- Nem todas – disse o humano. – Costumo vir até aqui nas noites de tempestade. Conheço uma entrada para nós.
Deram uma volta e entraram por uma pequena porta lateral que o humano abriu com a ajuda de uma navalha. De um bolso tirou uma lanterna e, iluminados pelo seu delgado raio de luz, começaram a subir uma escada de caracol que parecia interminável.
- Tenho medo - grasnou ditosa.
- Mas queres voar, não queres? – Miou Zorbas.
Do campanário de S. Miguel via-se toda a cidade. A chuva envolvia a torre da televisão e, no porto, as gruas pareciam animais em repouso.
- Olha, ali vê-se o bazar do harry. Estão ali os nossos amigos – miou Zorbas.
- Tenho medo! Mamã! – Grasnou ditosa.
Zorbas saltou para o varandim que protegia o campanário. Lá em baixo os automóveis moviam-se como insectos de olhos brilhantes. O humano pegou na gaivota com as mãos.
- Não! Tenho medo! Zorbas! Zorbas! – Grasnou ela dando bicadas nas mãos do humano.
- Espera! Deixa-a no varandim – miou Zorbas.
- Não estava a pensar atirá-la – disse o humano.
- Vais voar Ditosa. Respira. Sente a chuva. É água. Na tua vida terás muitos motivos para ser feliz, um deles chama-se água, outro chama-se vento, outro chama-se sol e chega sempre como recompensa depois da chuva. Sente a chuva. Abre as asas – miou Zorbas.
A gaivota estendeu as asas. Os projectores banhavam-na de luz e a chuva salpicava-lhe as penas de pérolas. O humano e o gato viram-na erguer a cabeça de olhos fechados.
- A chuva, a água. Gosto! – grasnou.
- Vais voar – miou Zorbas.
- Gosto de ti. És um gato muito bom – grasnou ela aproximando-se da beira do varandim.
- Vais voar. Todo o céu será teu – miou Zorbas.
- Nunca te esquecerei. Nem aos outros gatos – grasnou já com metade das patas de fora do varandim, porque, como diziam os versos de Atxaga, o seu pequeno coração era o dos equilibristas.
- Voa! – miou Zorbas estendendo uma pata e tocando-lhe ao de leve.
Ditosa desapareceu da sua vista, e o humano e o gato temeram o pior. Caíra como uma pedra. Com a respiração em suspenso assomaram as cabeças por cima do varandim, e viram-na então, batendo as asas, sobrevoando o parque de estacionamento, e depois seguiram-lhe o voo até às alturas, até que mais para além do cata-vento de ouro que coroava a singular beleza de S. Miguel.
Ditosa voava solitária na noite de Hamburgo.
Afastava-se batendo as asas energicamente até se elevar sobre as gruas do porto, sobre os mastros dos barcos, e depois regressava planando, rodando uma e outra vez em torno do campanário da igreja.
- Estou a voar! Zorbas! Sei voar! – grasnava ela, eufórica, lá da vastidão do céu cinzento.
O humano acariciou o lombo do gato.
- Bem gato, conseguimos – disse ele suspirando.
- Sim, à beira do vazio compreendeu o mais importante – miou Zorbas.
- Ah sim? E o que é que ela compreendeu? – perguntou o humano.
- Que só voa quem se atreve a fazê-lo – miou Zorbas.
- Suponho que agora te estorva a minha companhia. Espero-te lá em baixo – despediu-se o humano.
Zorbas permaneceu ali a contemplá-la, até que não soube se foram as gotas de chuva, ou as lágrimas que lhe embaciaram os olhos amarelos de gato grande, preto e gordo, de gato bom, de gato nobre, de gato do porto.'
História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar – Luís Sepúlveda
A todos os gatos Zorbas da minha vida... que sem nunca me invejarem as asas.. me ajudam a voar.
4 comentários:
oh joaninha...
...eu não sou de certeza um Zorbas pois, como sabes, desejava muito ir contigo nesta aventura.
Também gostava de te dizer muitas coisas mas, talvez por este sentimento ambíguo, não consigo encontrá-las dentro de mim!
Quero essencialmente que saibas que fico a torcer por ti, a ver-te voar ao longe...e a sonhar com os nossos próximos voos :)
Aproveita todos os segundos...sabes que são únicos, não sabes?
um abraço daqueles nossos...que tanta falta nos vão fazer nos próximos meses!
***
Pessoas como tu merecem sempre voar. Voar mais alto! Bjo cheio de força para a tua aventura por Cabo!! (parabéns pela excelente história)
Voa para Cabo Verde, alguém que vai para lá com o propósito com que vais é forte o suficiente, nem precisa de ajuda. Houvessem mais com essa coragem.
Parabéns pela composição dos textos e do blog, gostaria de acompanhá-lo, seria um prazer,
aguardo uma resposta, obrigado e um excelente 2009 repleto de paz e realizações.
Abraços Literários.
Marcos Miorinni
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